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sábado, 26 de dezembro de 2009

Pobres já gastam 5% mais que ricos

GOMES - 10-11-2009:

Estudo mostra avanço do consumo das classes D e E do Norte e Nordeste em relação às classes A e B do Sudeste

Márcia de Chiara – Estadão 09-11-2009 (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091109/not_imp463206,0.php)

Os pobres do Norte e Nordeste estão consumindo mais que os ricos do Sudeste. Nos últimos 12 meses até setembro deste ano, as classes D e E das regiões Norte e Nordeste do País gastaram R$ 8,8 bilhões com uma cesta de alimentos, produtos de higiene pessoal e limpeza. Essa cifra é 5% maior que a desembolsada pelas camadas A e B (R$ 8,4 bilhões) que vivem no Sudeste do País no mesmo período com esses itens, revela estudo exclusivo da LatinPanel, maior empresa de pesquisa domiciliar da América Latina.

Em igual período do ano passado, a situação era exatamente inversa: o gasto das camadas que compõem a base da pirâmide social no Norte e Nordeste com bens não duráveis havia sido 5% inferior ao das classes A e B do Sudeste. "Houve uma reversão", afirma Christine Pereira, diretora da empresa e responsável pela pesquisa.

Ela atribui a mudança a fatores conjunturais. Inflação em baixa, que dá mais poder de compra ao consumidor, ganhos de renda dos trabalhadores que recebem salário mínimo e o fato de a crise não ter afetado as camadas de menor renda explicam, segundo Christine, o avanço do consumo dos bens não duráveis pelos mais pobres. Os dados da pesquisa foram obtidos a partir de visitas semanais a 8,2 mil domicílios para auditar o consumo de 65 categorias de produtos.

Embora em maior número, as famílias das classes D e E do Norte e do Nordeste têm renda agregada bem menor que a das famílias das classes A e B do Sudeste. No Norte e no Nordeste, há 6,9 milhões de lares que recebem até quatro salários mínimos (R$ 1.860) por mês, o que corresponde a 40% do total de famílias das classes D e E do País. Já as classes A e B somam 4,9 milhões de domicílios no Sudeste ou 45% dos lares desse estrato social do Brasil. Essas famílias têm renda mensal superior a dez salários mínimos (R$ 4.650).

Para o economista chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, boa parte do avanço do consumo dos mais pobres se deve ao aumento real do salário mínimo de 5,7% concedido neste ano. "O salário mínimo pesa muito nas regiões Norte e Nordeste", diz.

Nas contas dele, a massa real de renda dos ocupados, pensionistas da Previdência e também beneficiários do Bolsa Família cresceu 7,7% no Norte e Nordeste no primeiro semestre deste ano em relação a igual período de 2008. O acréscimo é mais que o dobro do registrado para essa população que vive no Sudeste do País, que foi de 3,1% nas mesmas bases de comparação.

Além disso, Borges ressalta que a inflação dos mais pobres, que ganham até cinco salários mínimos (R$ 2.325), medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), perdeu fôlego este ano. Após fechar 2008 com alta de 6,5%, a maior taxa desde 2003, o INPC deve encerrar 2009 com aumento de 4,5%, prevê.

"Alguma coisa está fora da nova nova ordem mundial"

GOMES - 08-11-2009:

O título é para parafrasear e lembrar Caetano Veloso, grande compositor e cantor, mas um falastrão descuidado, que falou mais uma besteira política essa semana.



Em entrevista ao jornal "Bahia Econômica", em 02-11-2009, a prof. Tânia Bacelar(da UFPE) troca em miúdos a inversão da lógica desenvolvimentista e de distribuição de renda do país que, ao se voltar para o Nordeste está produzindo uma nova face para a região. O assunto também é matéria de capa da edição dessa quinzena da revista EXAME.

A entrevista está disponível na integra, no site da CEPLAN, consultoria da qual a economista faz parte.

Em resumo, a lógica desenvolvida por ela é a seguinte:

· Opção política do governo de apostar no mercado interno;

· Política de transferência de renda e aumento da renda e do emprego;

· Crescimento real do salário mínimo em mais de 50% entre 2002 e 2008 (tendo o Nordeste cerca de 28% da população do Brasil, mas com 50% da população ocupada ganhando salário mínimo, esse aumento real dá um efeito estupendo na renda e no consumo da população, dinamizando o mercado interno);

· Como o Nordeste tem metade dos pobres do país, dos R$ 12 bilhões do bolsa família, R$ 5 bilhões vêm para cá, aumentando esse dinamismo através do aumento do consumo das famílias de baixíssima renda. Esse aumento de consumo atrai novos investimentos;

· Foram atraídos investimentos de grandes corporações produtoras de alimentos (Bauducco, Nestlé, na Bahia, Perdigão e Sadia em Pernambuco, por exemplo) e de outros produtos de consumo, com impactos na industria, comércio e serviços da região;

· Os investimentos da Petrobras merecem referência especial:

o A empresa tinha deixado de investir em refinarias desde 1939 (Landulfo Alves, na Bahia). Está construindo 3 refinarias (PE, BA, RN), sendo as duas primeiras de grande porte;

o Mudou sua política de compra de navios, beneficiando a indústria naval nacional. Pernambuco já tem um estaleiro em funcionamento e deverá ganhar outros três;

· O PAC tem ajudado a economia local. Os investimentos na duplicação da BR-101 (AL ao RN), a construção das ferrovias Oeste-Leste (que ligará o cerrado baiano e a ferrovia Norte-Sul ao porto de Ilhéus), e a ferrovia Transnordestina, integrando Suape, Pecém e Ilhéus, são algumas dessas obras;

· O início do soerguimento da indústria têxtil, a partir de Pernambuco, com os investimentos infra-estruturais desse segmento, realizados em Suape.

O novo capitalismo de família no Brasil

GOMES - 11-10-2009:

Discussão interessante no site de Luis Nassif hoje, sobre o novo capitalismo de família no Brasil. É bom acessar o link e ler também os comentários. A colaboração dos leitores é muito rica.



O texto destaca que "a privatização criou uma geração de novos financistas, beneficiados pelo modelo de FHC – que teve como principais mentores Gustavo Franco (no planejamento político), André Lara Rezende (no papel de conduto entre o mercado e a política cambial), Pérsio e Edmar Bacha (amoldando a política cambial e monetária ao novo modelo) e Luiz Carlos Mendonça de Barros e Ricardo Sérgio (como operadores)".

Fala da atuação de Daniel Dantas, Jorge Paulo Lehmann, Eike Baptista (de forma mais recente) e do comportamento dos grandes grupos nacionais como a Odebrecht, Gerdau, Sadia, Suzano, Klabin, Votorantim.

É uma aula a respeito de como a política pode interferir na economia, para proveito (às vezes disfarçadamente involuntário) de quem está comandando as duas.

Vale a pena acessar.

Com dólar fraco, EUA "exportam" inflação, afirmam economistas

GOMES - 20-07-2008:

Enxurrada de moeda americana fez emergentes comprarem mais commodities

TONI SCIARRETTA
Da reportagem local da Folha de S. Paulo

Os países ricos responsabilizam os emergentes -em particular a China, que coloca 200 milhões de pessoas ao ano no mercado consumidor- pela escalada no preços dos alimentos e de commodities em geral. O consumo chinês, no caso, seria o grande "exportador" de inflação ao restante do mundo.

Para alguns economistas, como Jeffrey Frankel, especialista em commodities da Universidade Harvard, a China só está repatriando agora uma inflação exportada pelo menos desde os anos 80 pelos EUA, por meio da desvalorização do dólar -que reequilibra seu déficit comercial- e pela política de juros baixos -que controla o déficit fiscal, agravado nos anos George W. Bush pela guerra no Afeganistão e depois no Iraque.

"Os EUA exportaram inflação para o restante do mundo, levando os preços em dólares das commodities a decolarem. Há um ano, as expectativas de crescimento do mundo, incluindo na China, se desaceleram, mas os preços do petróleo e de outras commodities subiram ainda mais. A demanda não explica sozinha os aumentos de preços", disse Frankel.

Exportando inflação
Pela teoria monetarista, os governos e os seus Bancos Centrais, quando querem controlar a inflação, costumam subir os juros e retirar dinheiro de circulação por meio da colocação de títulos de sua dívida. O custo é aumentar o endividamento.
A equação só não é totalmente verdadeira para os EUA, donos da máquina que imprime dólares, aceitos em todo o mundo. Ante a necessidade de reduzir a liquidez no país, em vez de subir juros e emitir títulos, os EUA podem liberar a importação. Com isso, conseguem ajustar a oferta do mercado com a demanda e ainda mandam dólares para o exterior, retirando dinheiro de circulação. À medida que os EUA ejetam moeda para fora, também reduzem a liquidez interna. Você ajusta não só o lado da oferta como cria a redução da demanda. Essa prática do governo americano é o que chamamos de "exportar inflação". A inflação deles. Qual o problema que ele cria? Aumenta a liquidez de dólar nos mercados mundiais", disse o economista Otto Nogami, do Ibmec-SP.

Para o ex-ministro Delfim Netto, esse aumento de dólares nos emergentes, resultado do chamado duplo déficit americano -comercial e fiscal-, explica parte da inflação atual.

"Os BCs estão numa situação curiosa. Eles causaram uma parte dessa confusão porque mantiveram as taxas de juros muito baixas, permitiram patifaria no sistema financeiro e aumentaram a liquidez de maneira assustadora. Na verdade, eles financiaram essa elevação de preços", disse.

Desvalorização
Delfim lembra que o dólar perdeu 40% de seu poder de compra em relação ao euro só nos últimos quatro anos, e as commodities assumiram um papel de "hedge" [proteção] contra essa desvalorização.
"O maior efeito dos EUA sobre essa elevação dos preços é a desvalorização do dólar. Ela deve explicar uns 40% do aumento do preço dos alimentos. O árabe quer vender o petróleo com correção monetária. Ele quer que o barril de petróleo compre a mesma coisa que comprava antes em dólares. Como o dólar está caindo, eles têm de subir o preço. É tão simples quanto isso", disse.

Para Italo Lombardi, economista da consultoria americana RGE Monitor, a discussão sobre quem exporta inflação para quem perdeu sua relevância na atualidade. Ele afirma que não há consenso se o petróleo sobe porque o dólar se desvaloriza ou se acontece o contrário.

"Esse assunto vem e volta com bastante freqüência aqui nos EUA. Muita gente apostava na recuperação do dólar, pelo menos, até o último discurso do Ben Bernanke [presidente do Fed]. O Fed deu indicações de que não deve elevar juros, o que enfraquece o dólar. E tinha motivos para o dólar voltar a subir, como um crescimento maior nos EUA do que na Europa."

"Como ajustar? Com juro maior também nos EUA. A taxa maior faz com que o excedente de dólares flua novamente em direção aos EUA. Isso aumenta a liquidez do mercado americano", afirma Nogami.

Gestão eficiente

GOMES - 27-11-2007:

Do Blog de Luís Nassif

Ontem, na premiação da Fundação Nacional de Qualidade (FNQ) para as melhores empresas do Brasil, o empresário Jorge Gerdau me contou, eufórico, os resultados do programa de qualidade aplicado na Prefeitura de São Paulo. A um custo de R$ 400 mil, bancado pelo setor privado, permitiu à Prefeiutura um ganho de R$ 2 bilhões, em um orçamento de R$ 17 bi,

Durante a premiação, o Ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, e o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, anunciaram a adesão do ministério e do banco ao Programa Nacional de Qualidade.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A indústria estéril da arbitragem

Gomes - 29-01-2006:

O sábio recluso me escreve de novo. Andou analisando a indústria da arbitragem de juros, criada pelo Plano Real e mantida pelo governo Lula. Consiste em trazer dólares de fora, a um custo baixo, e aplicar aqui em títulos públicos, à taxa Selic, sem risco, tudo garantido pelo Banco Central.
Ele compara esse ciclo de rendimentos parasitários às lavras de ouro e de diamantes, nos primórdios da colonização, e ao tráfico de escravos, negócio central do capitalismo brasileiro por 200 anos, estabelecendo em torno dele um anel de negócios paralelos de navegação, bancos e seguros.

Tal qual o tráfico negreiro, o negócio da arbitragem tem poderosos apoios no governo e nos círculos do poder. Seus donos e beneficiários se dividem em três grupos:
1. Bancos grandes, médios e pequenos e suas ramificações auxiliares, empresas de leasing, holdings financeiras e administradoras de cartões de crédito que conseguem linhas de crédito no exterior. Bancos, mesmo pequenos, estão hoje conseguindo captar no exterior com extrema facilidade, dada a exorbitante liquidez internacional.
2. Empresas da economia produtiva de grande porte que têm cadastro para captar no exterior. Nesse grupo contam-se aproximadamente 120 empresas brasileiras.
3. Brasileiros com depósitos e aplicações em moeda estrangeira, registrados ou não no BC, que podem usar esses recursos como lastro para captar no exterior. São US$ 94 bilhões registrados no BC mais uma estimativa média de depósitos não declarados de US$ 120 bilhões.

Esses três grupos conseguem levantar grandes volumes de dólares ou euros a taxas de até 4% ao ano, ou mais altas quando o devedor está legalmente no Brasil, mas ainda assim por menos da metade das taxas internas.

Como a dívida pública em reais está hoje com um volume equivalente a US$ 400 bilhões e não cessa de crescer (só em 2005 cresceu 21%), a disponibilidade de papéis para arbitragem é quase ilimitada, diz ele. De 45% a 50% do total da dívida pública interna está lastreando operações de arbitragem.

Os donos da arbitragem hoje comandam toda a lógica da política monetária. É a esses interesses que está subordinada a política monetária do Copom, o manejo da política cambial, a obsessão com as metas de inflação como centro de toda a política econômica, o incompreensível desprezo do BC pelos números da economia produtiva , o crescimento brasileiro, muito inferior a todos os grandes emergentes, inferior à média da América Latina, inferior à média mundial e inferior à média do crescimento da África em 2005 (4,7%). Só há um público para o Copom: os donos da liquidez, beneficiários dos negócios da arbitragem.

Tome-se o exemplo:
1. O investidor pegou um empréstimo de US$ 10 milhões no exterior e entrou no Brasil no início de 2003, com o dólar a R$ 3,50. Converteu e aplicou R$ 35 milhões em papéis Selic por três anos, a uma média de rentabilidade de 20% ano (apenas para exemplificar).

2. No primeiro ano os papéis valiam R$ 42 milhões; no segundo ano, R$ 50,4 milhões; no terceiro ano, R$ 60 milhões.

3. No resgate, ele pode recomprar os dólares a R$ 2,25, ficando com US$ 26,66 milhões. Pagou os US$ 10 milhões do empréstimo, mais US$ 2,5 milhões de juros. Seu lucro foi de US$ 14,1 milhões, quase uma vez e meia seu capital inicial, em apenas três anos, além do rendimento de sua aplicação original que lastreou o empréstimo.
Trata-se de uma operação fantástica, única no planeta. Existem no Brasil meia dúzia de grupos com capacidade de tomar individualmente mais de US$ 1 bilhão cada um, outra dezena ou pouco mais com captações individuais de US$ 500 milhões a US$ 1 bilhão e na faixa dos US$ 100 milhões a US$ 200 milhões existem empresas até desconhecidas do grande público, calcula ele.

Os lucros da arbitragem são estéreis, não derivam da criação de riqueza e produzem, ao contrário, grande concentração de renda e riqueza.

O nó górdio da economia consistirá em romper com esse círculo vicioso induzindo o grande capital a investir na atividade produtiva.

Argentina ladeira abaixo

Do Blog de Fernando Rodrigues - 04/02/2006

Outra da Argentina, sobretudo para quem acha que o país vizinho é um modelo de desenvolvimento econômico por ter decretado a moratória a crescido muito nos últimos tempos.

Em janeiro deste ano, o impostos coletados na Argentina totalizaram US$ 3,65 bilhões, segunda a Receita Federal portenha. O valor equivale a um aumento brutal de 26,8% sobre o mesmo mês em 2005. Nenhum país resiste muito tempo a esse tipo de alta na carga tributária.

Como já registrado antes aqui neste blog, a Argentina é uma miragem econômica. Krichner vive atrás dos empresários pedindo que contenham o aumento de preços. Até o preço do popular “dulce de leche” está tabelado. Não vai funcionar.

O PIB da Argentina cresce a 8% ou 9% por ano. OK. Só que o valor do PIB hoje é exatamente o mesmo de uns cinco anos atrás. Por quê? Porque a Argentina sofreu uma depressão de mais de 20% por causa da crise com a desvalorização do peso.

E mais:a inflação anual já passou dos 12%. No final deste ano, a crise será brava por lá.